Ena, até já parecemos os States!
Há 7 horas
“Discordo daquilo que dizes, mas defenderei até à morte o teu direito de o dizer.” Voltaire “O mal de quase todos nós é que preferimos ser arruinados pelo elogio a ser salvos pela crítica.“ Norman Vincent
O que o prof. Azevedo Gomes me disse foi: "Ó Mário, depois de você sair, fui chamado lá acima ao general. Estava furiosíssimo, sentia-se traído, por si e queria--o pôr fora da Candidatura. Tive de lhe dizer: "Senhor general, se expulsa o Mário Soares, eu também saio e vai ver que há mais outras pessoas que se demitem." O General disse: "Então eu não o quero ver mais, enquanto houver Candidatura!" E assim foi! Nunca mais despachou comigo, nunca mais me falou, nunca mais me deu uma ordem! Eu estava para ir ao grande comício que se fez no Porto e ele proibiu-me. Disse ao Azevedo Gomes que eu estava proibido de ir a qualquer comício em que ele estivesse. Isto foi a meio da Campanha e eu nunca mais vi o Norton de Matos! Não fomos às eleições, isto é: não votámos, mas estive esse dia todo na Candidatura, até ao fim, a queimar papéis, com a PIDE a rondar. Depois fui para casa, isto é: para casa dos meus pais, ainda era solteiro. Às sete da manhã, fui prevenido por uma criada: "Fuja, fuja, que está ali a polícia." E eu em pijama, com umas pantufas e um sobretudo, fugi pelas traseiras do Colégio - não havia Universidade ainda. Era uma quinta vasta, que em parte, pertencia ao Colégio. Cheguei à rua da Beneficência, apanhei um táxi e fui para casa do meu amigo Barradas de Carvalho, que era também comunista, um amigo-irmão, até à morte. Ele morreu comunista já depois do 25 de Abril. Mas em 75 dava-me razão, também achava uma loucura o que se estava a passar. Fui a casa do Barradas, ele também vivia em casa dos pais, ali ao pé da Igreja de Fátima. Estava a dormir, acordei-o. "Olha, a PIDE foi a minha casa, no Colégio." Nós, nessa altura, vivíamos ainda no Colégio.
Portanto, o Barradas foi a minha casa, já tinha de lá saído a PIDE, ele era cuidadoso em matéria conspirativa. Nós éramos muito atentos à vigilância da PIDE. Por exemplo, quanto às escutas telefónicas, sempre tive um imenso cuidado.
O meu escritório de advogados era na rua do Ouro, 87, 2.o andar. Entra-se por uma ourivesaria que se chama Salgado. Ainda existe. O escritório era do meu amigo Soromenho e do Pimentel Saraiva, dois advogados, muito mais velhos do que eu. Não era um escritório de advogados, como agora. Cada um pagava a sua parte da renda e cada um fazia a sua vida independente. Naquele tempo era assim. Comecei a fazer a minha vida e relacionei-me muito com aquela gente toda da Boa-Hora. Conhecia os escrivães, os advogados, os juízes, o Ministério Público, toda a gente. Sou expansivo, como sabe, não tinha dificuldade nenhuma em conhecer e confraternizar com as pessoas que, geralmente, se abrem comigo. Um belo dia estava na Boa-Hora e apareceu-me um escrivão que me disse: "Ó sr. Doutor, tenho uma coisa para lhe dizer. Há aqui um processo que é uma escandaleira contra estes malandros do regime! É este, aquele, aqueloutro." Fiquei a saber. Um dia ou dois depois, apareceu-me um jornalista do "Sunday Times" inglês, que eu não conhecia, mas veio ter ao meu escritório porque colegas portugueses lhe disseram que eu era da "Oposição". Era público e notório. Tinha criado uma rede enorme de jornalistas estrangeiros com quem convivia e que se tornaram meus amigos. Foi o que me valeu. No "Monde", no "New York Times", na Reuters, no Exchange Telegraph, na France Press... Transformou-se numa rede de amigos, jantávamos e convivíamos com frequência. Eu dei-lhes imensas notícias e eles bateram--se por mim. Quando fui advogado do Delgado, depois do seu assassinato, fui sozinho a Badajoz a guiar o meu carro, um pequeno Volkswagen. Vieram alguns, à distância, mas atrás de mim. E fizeram reportagens e deram notícias, senão eu tinha sido preso logo na fronteira. Foi uma cobertura que eu tive sempre, até ao fim do salazarismo.
A esse jornalista do "Sunday Times" nunca o tinha visto na minha vida. Disse-me que queria saber o que era isso do escândalo dos Ballet Rose, tinha vindo ter comigo porque eu era informado, ia muito ao tribunal da Boa-Hora. Disse-lhe que só tinha uns zunzuns, mas que podia apresentá-lo a um escrivão que poderia dar-lhe mais informação. Mas disse-lhe logo: "Ficamos combinados. Se você diz alguma coisa sobre o escrivão ele perde o emprego e vai parar à cadeia. Tenha cuidado, não cite nomes nem as suas fontes." Ele disse-me que era um jornalista responsável, que sabia muito bem como era. Nunca revelava as fontes. Foi assim, em confiança. No dia seguinte, disse-lhe para ir ter com o escrivão a um sítio, que lhe mostrei. E ele publicou tudo em Londres.
Não. Não tenho a pretensão de ter herdeiros. Quis dizer apenas que Sócrates era o homem que tinha a legitimidade para ganhar as eleições, porque representava o PS. E que, em momento de crise, no meu entender, era preciso para o país que ganhasse.
O meu sobrinho é um amigo... Não me queixo. Tenho bons genes. O meu Pai morreu aos 92. Fui muito doente quando era jovem, tinha asma. Mas por volta dos 18 anos a asma passou. E passou--me completamente, até agora. Dantes andava sempre com uma bomba no bolso, que me tirava a asma. Até houve uma história, depois da Campanha do Delgado, num 5 de Outubro, que lhe conto. Fui preso e posto, provisoriamente, antes de ir para a PIDE, numa esquadra no Alto de São João. Eu tinha um tio, irmão da minha mãe, que era uma excelente pessoa, bondoso e simples. Nenhuma ideia deve ser baseada em preconceitos. Nenhuma decisão deve ser tomada segundo imposições. Destas premissas só se pode esperar que os artigos sejam independentes.
O autor está aberto a críticas. Pensamentos contrários são proveitosos, principalmente aqueles manifestados de uma forma consciente e despretensiosa.
Luis Toscano
“Discordo daquilo que dizes, mas defenderei até à morte o teu direito de o dizer.”
Voltaire
“O mal de quase todos nós é que preferimos ser arruinados pelo elogio a ser salvos pela crítica. “
Norman Vincent